A relação do Brasil com seus ecossistemas passou por fases distintas: o manejo indígena da terra e o cuidado com a floresta; a extração de recursos no período colonial; e a expansão moderna da fronteira ligada à agricultura, à pecuária e à infraestrutura. O longo arco do desmatamento costeiro é especialmente claro na Mata Atlântica, onde séculos de ocupação, agricultura de plantation, mineração e industrialização reduziram uma das florestas mais ricas do mundo a fragmentos em torno das maiores cidades do país. O relato histórico de Warren Dean descreve isso como uma economia política do desmatamento, em que “desenvolvimento” significou repetidas vezes transformar floresta em terra, madeira ou receita de exportação.1
Na Amazônia, a lógica moderna do desmatamento muitas vezes tem menos a ver com produtividade imediata do que com transformar a floresta em ativo (posse de terra, pasto ou valor especulativo), reforçada pela fiscalização fraca e pela atividade ilegal. Pesquisas sobre as causas do desmatamento na Amazônia destacam o papel central da pecuária, da extração de madeira e da dinâmica de desmatamento dos pequenos produtores, com incentivos moldados pelo crédito, pelas falhas de governança e pela expectativa de valorização da terra.2 É aí que a expressão “corte e queima” deixa de ser só uma imagem: ela descreve um mecanismo de fronteira para converter rapidamente a complexidade ecológica em usos simplificados da terra, que podem ser controlados, reivindicados e monetizados.
Um contrapeso fundamental é o papel das terras indígenas e de outras áreas protegidas. Estudos de grande escala mostram que as terras indígenas demarcadas na Amazônia brasileira tiveram historicamente uma perda acumulada de vegetação nativa muito menor do que as áreas ao redor, mesmo sob pressão crescente.3 A questão não é que essas terras sejam imunes (os últimos anos viram aumentar as invasões e o garimpo ilegal), mas que a proteção territorial e a governança comunitária comprovadamente reduzem o desmatamento e ajudam a manter os serviços ecossistêmicos que sustentam a agricultura, o regime de chuvas e a estabilidade do clima regional.
Nesse contexto, os “modelos econômicos baseados na natureza e favoráveis à floresta” se entendem melhor como uma tentativa de mudar a estrutura de incentivos: tornar a floresta em pé economicamente viável sem depender do desmatamento. Uma frente visível é o desenvolvimento das cadeias de valor da sociobiodiversidade (produtos como açaí, borracha e castanha-do-pará), em que a renda depende de manter a floresta, e não de derrubá-la. Os relatórios do Fundo Amazônia mostram como essas cadeias vêm sendo apoiadas por projetos que fortalecem a produção comunitária, a agregação, o beneficiamento e o acesso a mercados.4 Não é uma solução perfeita: esses modelos muitas vezes esbarram em limites de escala, logística, volatilidade de preços e poder de negociação diante da agricultura industrial.